|
|
|
|
Cinema e Teatro
Os números não deixam margem para dúvidas: a população branca estuda mais tempo, consegue os melhores empregos, recebe salários mais altos e tem mais acesso ao lazer. Urge uma mudança nesta realidade para que o Brasil seja um país justo. O teatro e o cinema são dois instrumentos atraentes, que podem colaborar à inclusão social de crianças e jovens negros.
No Rio Grande do Sul, a garotada do grupo Raízes da África leva aos palcos o massacre de negros em novembro de 1844, durante a Revolução Farroupilha. “Foi a maior guerra que existiu no Brasil e durou quase dez anos”, ensina o pesquisador José Luís Santos. E pensar que em apenas uma madrugada cerca de 700 negros foram brutalmente assassinados por traição do general Davi Canabarro, que era favorável à escravatura, ao contrário da maioria dos farrapos.
A contribuição que os negros deixaram na história do Brasil não é ensinada nas nossas escolas”, lamenta Ney Ortiz, diretor do Raízes da África. O grupo nasceu com a ambiciosa missão de resgatar, através das aulas de desenhos, teatro e dança, a história e a cultura do negro no Rio Grande do Sul. “O racismo é igual em todos os lugares. Aqui é tão forte como nos outros estados. Sempre foi. Nós lutamos pela igualdade social e racial”, defende o escritor Oliveira Silveira.
Para reviver os anseios negros na batalha, travada em Santa Catarina, os atores em formação se lançam ao trabalho de corpo e alma. “A história do meu povo já é talentosa por si própria, mas acho importante dar essa visibilidade ao negro”, afirma a aluna Liliana Cardoso. Para Robinson Boavista, também integrante do grupo, “é fundamental no que diz respeito à auto-estima do negro, que costuma ser colocado como um ser de menor valor na escala social”.
Entre uma turma majoritariamente formada por afro-descendentes, o estudante Marcelo Schultes chama a atenção por sua pele alva e seus olhos azuis. “Eu me considero com a alma negra, mas não é só por isso que estou neste trabalho. Considero muito importante o viés social de inclusão dos negros”, pondera Schultes. O célebre ator Milton Gonçalves relembra de seus tempos no Teatro Arena de São Paulo. “Ali fui recebido como ator, independente da raça, e isso me obrigou a uma corrida muito grande para chegar próximo à sabedoria daquele grupo”, conta.
Milton conta, ainda, que a sua participação acendeu uma luz sobre o suor dos negros pingado nas páginas dos livros de história do Brasil. “Já naquele tempo eu colocava para o grupo as minhas opiniões nesse sentido”, diz. “É o IBGE quem diz que somos a metade da população brasileira e se nós pegarmos quatro revistas das mais populares, nós não estaremos nem em 10% das páginas destas revistas. Acredito num projeto educacional que, a médio e longo prazo, crie oportunidades sérias para que todos os homens de todas as cores possam progredir e ter uma vida digna”.
As atrizes Adriana Lessa e Jéssica Sodré concordam com o colega de Rede Globo Milton Gonçalves. “As pessoas na arte buscam a fama pela fama, o sucesso que não significa o bom êxito e isso é muito delicado porque para ter sucesso é preciso saber da própria história dos seus ascendentes porque aí você vai ter raiz”, diz Adriana. “Estudei em colégios particulares e eu era uma das poucas alunas negras. Isso é muito triste. Por outro lado, moro em Nilópolis há muitos anos e acho que ao atuar em uma novela da Rede Globo ajudei a massagear o ego de quem também mora na Baixada”, conta Jéssica.
Uma favela na frente e uma câmera na mão
“Essa é uma possibilidade de as meninas se enxergarem, verem a comunidade onde moram, ver o que é a cultura negra. E isso é um espelho porque elas estão fazendo um vídeo e se enxergando. É bonito ver uma pessoa com a câmera pela primeira vez, descobrindo um mundo novo através das lentes”, avalia Mirela, que se empolgou com a boa vontade das moças e resolveu doar algumas horas da semana para a formação das meninas.
A região onde fica esta favela é considerada a mais violenta de Porto Alegre e que apresenta índices alarmantes de exclusão social. Os habitantes sobrevivem com uma renda abaixo de dois salários mínimos e a escolaridade é quase nula. Portanto, essas armas tecnológicas foram escolhidas para mostrar o lado mais humano da comunidade, um pedaço simbólico da própria África.
O ator Milton Gonçalves narra uma experiência semelhante. “A visita que fiz ao Continente Negro em 1977 foi fundamental para mim porque desde pequeno que ouvia sobre a África através da história do Tarzan, o homem branco com três metros de altura que gritava de cima das árvores e colocava os gorilas para correr. Afinal, ele era o dono da floresta africana. Evidentemente, a fábula era uma simbologia inglesa para destacar o domínio europeu sobre a África”. Ao dominar as técnicas de filmagens, quem reina sobre a favela é o olhar destas cineastas amadoras. |
|
![]() |
|
|